Extraído do Blog do Greenpeace

Por Cristina Amorim, a bordo do Rainbow Warrior

Chegamos a Gurupá, no arquipélago de Marajó, quando o Rio Amazonas começa a se abrir para o mar. Esta é uma cidade bem interessante. Fundada pelos portugueses, que chegaram à região para construir um forte, hoje é um exemplo de município amazônico que sabe investir em conservação e uso sustentável da floresta.
Com cerca de 30 mil habitantes, e 80% na área rural, eles desenvolveram uma forte tradição extrativista e de uso sustentável da floresta. Aqui há duas comunidades quilombolas, uma reserva extrativista, a Resex Gurupá-Melgaço, e uma reserva de desenvolvimento sustentável, a RDS Itatupã-Baquiá.
É um município que aprendeu a crescer com a floresta, e não desmatando. Isso aconteceu a partir da década de 1970, quando os trabalhadores rurais tomaram o sindicato patronal.
Ontem conhecemos a Casa Familiar Rural, uma escola formada pelos trabalhadores rurais familiares da região que funciona há dez anos na Ilha Grande de Gurupá. Localizada dentro de uma várzea, ela usa produtos da floresta, como o açaí, como base para aulas de português, matemática, história. Depois, os alunos de ensino fundamental e médio desenvolvem projetos de uso sustentável desse elemento com suas próprias famílias.
 “Antes os jovens tinham de ir para a cidade para estudar, e quando chegavam lá esqueciam a sua origem, sua cultura. Com a escola aqui, elas ficam na comunidade e aprendem a usar os produtos da floresta em seu benefício”, conta Manoel do Carmo, um dos líderes comunitários do município.
É o modelo ideal que as comunidades de Porto de Moz, cidade que estávamos antes de vir para Gurupá, pediam tanto: falta uma escola de ensino médio dentro da Resex Verde para Sempre. Além de reduzir o número de jovens que saem da floresta e resolvem não voltar, até porque o ensino é voltado para uma realidade que não é a do campo, outro fator faz com que a demanda seja urgente: a violência.
Quem sai da floresta e a defende fica vulnerável longe de sua comunidade. Uma mãe da Verde para Sempre não segurou as lágrimas ao me contar o que aconteceu com seu filho. “Ele comprou a vida dele com um dinheiro que tinha no bolso, um trocado. Ele vai estudar na cidade, para se formar, e é isso que acontece.”