Paciente da zona rual é o que mais sofre.

Portel é um exemplo das dificuldades enfrentadas pelos moradores do Marajó. Fica a 16 horas de navio até Belém. E, dentro do próprio município, as distâncias são enormes. Há comunidades na zona rural distante 30 horas, de barco, da sede da cidade. O dobro do tempo para se chegar à capital paraense.
 É o segundo maior dos 16 municípios do Marajó. Tem 60 mil habitantes, perdendo para Breves, que conta com mais de 90 mil moradores. No entanto, sua extensão territorial equivale a três vezes o tamanho de Breves. Mas Portel não dispõe de resgate aeromédico para transportar os pacientes para Belém. “E nossos pacientes estão morrendo na zona rural porque não temos esse resgate, que é o Samu aéreo”, diz o secretário de Planejamento, Emerson Tenório. “O Estado alega falta de autonomia de voo para a aeronave chegar no município. Mas é algo fácil de resolver: bastava Portel ter posto de abastecimento”, acrescentou.
 Segundo ele, uma realidade é ter um resgate aeromédico, com médicos capacitados. “Outra coisa é a gente mandar buscar o nosso paciente em uma voadeira, atravessando uma baía (baía do Marajó) dessa”, disse. Secretário de Saúde de Portel, Nizomar Júnior assumiu a pasta em 28 de maio deste ano, mas há oito anos é conselheiro de saúde. Servidor concursado há dez anos, disse que, ao assumir a secretaria, observou algumas “fragilidades, que não foram construídas há pouco tempo, seja por questões federais (Ministério da Saúde), por questões estaduais (Secretaria de Estado de Saúde Pública) e até mesmo fragilidades em nível municipal”, disse. “Ao longo dos anos, percebemos um enfraquecimento do SUS (Sistema Único de Saúde) no que diz respeito às políticas voltadas à execução no município em relação à questão de financiamento e a programas que, por algum motivo, foram desaparecendo, como a Farmácia Popular. E o Estado, de uma certa forma, não alinhou alguns pontos para que a gente pudesse estabelecer um fluxo ideal de atendimento aos usuários”, completou. 
Ele citou o Tratamento Fora de Domicílio (TFD). “Muitas vezes, temos usuários que estão fora do Estado (para tratamento de câncer ou renais crônicos). E que o Estado poderia estar assumindo essa responsabilidade com eles. E o município, de forma sobrecarregada, acaba tendo que assumir esse usuário fora do Estado, que também poderia nos dar esse apoio com relação a tratamento fora do domicílio e, em especial, fora do Estado”, afirmou. Por mês, e para o TFD, o município recebe do Ministério da Saúde R$ 10,4 mil. “Mas temos uma despesa próximo de R$ 60 mil todo mês. É uma conta que não fecha. São custos com passagem, com diárias (para o técnico e ajuda de custo da família, pois entram o usuário e seu acompanhamento)”.
 Acrescentou o secretário Nizomar: “Temos uma demanda reprimida muito elevada no que diz respeito ao Estado garantir especialidades, como neurologia, ortopedia, reumatologia, especialidades. Temos uma região em que o acesso é o transporte marítimo, em que temos de 16 a 18 horas de viagem até a capital, que nos faz, muitas das vezes, fazer transferência de determinados usuários com um custo muito elevado”.

Secretário de Planejamento, Emerson Tenório diz que Portel tem 25 mil quilômetros quadrados de área e em torno de 60 mil habitantes. São dois habitantes por quilômetro quadrado. “Imagine implantar políticas públicas, que são subfinanciadas pelo Ministério da Saúde, em uma região de difícil acesso onde os valores dos insumos estratégicos são bem maiores que na capital. Nossa zona rural é muito extensa. É tudo pelo rio. Nossas ruas são nossos rios. Precisamos que o ministério olhe isso de forma diferente. Ele não leva em consideração as especificidades regionais”, diz.
Responsável pelo setor de endemias de Portel , Adail Tenório diz que, no próprio município há dois cenários do SUS. “A sede do município comporta 30 mil habitantes. Como vamos montar um serviço de saúde tendo 25 mil quilômetros quadrados? E uma população de dois habitantes por quilômetro quadrado? Da sede de Portel, até no limite com Pacajá, são 30 horas de barco de viagem. Tem um posto de saúde lá. É o dobro de tempo para ir para Belém. Como consegue colocar o mesmo serviço, nos moldes do SUS, para essas mesmas localidades? Esse é o novo desafio. Dentro do próprio município tem essa desigualdade”, afirmou.
 A Prefeitura de Portel informou que o resgate aéreomédico é responsabilidade do Governo do Estado do Pará, “sendo o município de Portel atendido somente em casos graves, pois o Hospital Regional de Breves atende grande parte da demanda do município no que se refere aos casos de média e alta complexidades”. A respeito do resgate aéreo em Portel, a Sespa informou que “o município não tem pista homologada pela Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) para voo e decolagem”. (D.P.)
Perdendo muito líquido, o que já começaria a representar sofrimento para o seu bebê, uma gestante foi levada para Belém, mesmo destino de um funcionário que furou o olho direito ao sofrer um acidente de trabalho em uma madeireira. Esses dois fatos ocorreram em Portel, município na Ilha de Marajó e distante, de navio, 16 horas da capital paraense. E refletem as dificuldades dos moradores, sobretudo os das comunidades ribeirinhas e rurais, em ter acesso à saúde. O hospital municipal de Portel apresenta problemas estruturais. Faltam lajotas no piso, por exemplo. Precisa ser reformado. Há, na zona rural, muitos acidentes causados por velas.

 Motivo: não há energia elétrica nessas comunidades. Também há muitos acidentes com motos. Assim como ocorre em Breves, as pessoas não usam capacetes. Quase diariamente, há condutores de motos que sofrem fraturas. O Hospital Regional, localizado em Breves, absorve quase 100% esses problemas com fatura, segundo apurou a reportagem.
 Nas áreas distantes de Portel, há acidentes de trabalho nas madeireiras, muitas das quais clandestinas. No caso daquele trabalhador, a própria empresa fretou um avião e o transportou para Belém.A viagem dura, no máximo, uma hora. Para chegar até o local do acidente, são três horas de voadeira. E olha que essa é uma embarcação mais veloz. Portel é o segundo maior município do Marajó (só perde para Breves), mas seu território equivale a três Breves. No hospital regional, em Breves, há oftalmologista, mas para atendimento ambulatorial, não de urgência e emergência.

Durante uma semana, o oftalmo atende as demandas de ambulatório – ou seja, de consulta. Os casos de urgência e mais emergência, fora desse período, são encaminhados para Belém. Aquela jovem apresentava gravidez de 29 semanas – um trabalho de parto precoce. A criança ia entrar em sofrimento.

O Hospital Regional de Breves não pôde aceitar a gestante porque não tinha leito para a criança. Tinha leito para a mãe, mas não para o bebê. Ela foi encaminhada para a Santa Casa, em Belém. Foi de navio. São 16 horas de viagem. A gestante foi acompanhada de um técnico de enfermagem. A passagem custa R$ 100. O município compra a cama para a paciente. Tudo sai em torno de R$ 700, valor bancado pela Secretaria de Saúde de Portel. A diária do técnico de enfermagem custa R$ 200. No caso da gestante, era um tratamento obstétrico. Um tratamento de alta complexidade. Só que o médico de Portel não é obstetra. O hospital conta, atualmente, com um clínico e um cirurgião.
 O hospital tem 30 leitos. Construído pelo Estado, mas está sob gerência municipal. Não sofre reforma há mais de dez anos. “Nosso hospital é bem precário. Portel não tem condição de construir hospital e nem reformar. Depende diretamente da política pública do Estado para reformar o hospital. O Ministério da Saúde investe muito em atenção básica e pouco na rede hospitalar”, disse o secretário de Planejamento de Portel, Emerson Tenório. “Estamos com recursos de uma emenda parlamentar no valor de R$ 400 mil para reformar o hospital. O dinheiro já está na Caixa. A gente sabe que ainda é um valor insuficiente”, afirmou. A Secretaria Municipal de Saúde informou que pretende entregar o hospital reformado até dezembro deste ano.

Fonte: ORM