“Mãe, o morcego me mordeu”. No meio da madrugada, Josekelle Bontá dos Santos acordou a mãe, Rosana. O sono da família, que dorme em redes, foi interrompido pelo ataque. Uma menina alegre, que gostava de brincar com seus irmãos e era muito “trabalhadeira”, segundo a mãe, Josekelle morreu de raiva humana. Aos 12 anos, completados em março deste ano, residia com a família no rio Laguna, distante da sede de Melgaço, no Marajó. Ela faleceu às 10h58 de 15 de maio, no Hospital Regional do Marajó, em Breves. Causa da morte: encefalite (inflamação e infecção do cérebro desencadeada geralmente por um vírus). Os casos de raiva humana, em Melgaço, são uma tragédia.
Casos confirmados de raiva humana no Pará não ocorriam desde 2005, quando 15 foram registrados em Augusto Corrêa e três em Viseu, nordeste paraense -, todos por transmissão de morcego hematófago, segundo a Secretaria de Estado de Saúde Pública (Sespa). “Não esqueço nem um momento dela. Eu pensei que ia levar minha filha de volta pra casa”, disse Rosana, 28 anos. “Perdi a minha filha. Tão novinha. Não me conformo”, afirmou.
Seu marido, o lavrador Pedro Ribeiro dos Santos, 31, vive naquela comunidade há 22 anos. “A maior parte das casas (de madeira) é aberta. Não tem parede. A minha não tem quarto. Tínhamos seis filhos (com idades entre 1 e 13 anos). Durante esses anos que moramos lá nunca tinha visto esse fato que aconteceu. Tem morcego, mas é normal. Duas da manhã ele tem o costume de picar a gente, que é o momento que a gente tá dormindo. Quando ele pica a gente, a gente não sente nada. Adormece a gente”, contou. Josekelle foi mordida, na testa, seis meses antes de sua morte.
 Quando a filha avisou que foi atacada pelo morcego, Rosana se levantou e limpou seu rosto, que sangrava. “Queimei um pedacinho de pano, tirei aquela cinza e coloquei na testa dela e parou o sangue”, contou. A madrugada era iluminada pela lamparina, pois não há energia elétrica na comunidade. Aparentemente, Josekelle ficou boa. “Esses tempos, ela me dizia: ‘mãe, essa mordida de morcego tá ferrando’. Não, minha filha, não tem problema.Está sarado”, Rosana tranquilizava a filha. Um dia, Josekelle amanheceu com dor de cabeça. “Eu pensei que fosse gripe. No dia que ela adoeceu, viemos embora para Melgaço. Oito dias antes, já tinha morrido minha sobrinha, de 4 anos. Aí, morreu meu sobrinho, de 2 anos. Moravam perto da gente. Aí, todo mundo entrou em pânico. Eu tava desesperada. Já tinha morrido a minha sobrinha e esse meninozinho novo. Já tinha vindo doente uma prima dela aqui, pequenina, com sete anos. E os enfermeiros de Melgaço disseram que, quando visse uma criança com dor de cabeça e febre, era pra correr pra cidade. Doía um lado do olho dela. Fiquei agoniada. Mas eu não disse pra ele (o marido) o motivo. Eu disse: ‘nós vamos receber e voltamos amanhã, se Deus quiser. Foi quando não deu certo”.

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