Blog – Nos conte um pouco de sua trajetória.
JMG – Nasci em Limoeiro do Ajuru, cidade vizinha a este Município, de onde vim com apenas nove anos. Hoje, com 37 anos de idade, casado, pai de dois filhos que, como todos os de nossa região, estudam em escola pública, posso afirmar que sinto-me genuinamente boavistense e batalhador de/por uma educação pública de qualidade.
Sou Pedagogo pela UFPA e Especialista em Ciências e Matemática nas Séries Iniciais também pela UFPA mas, comecei minha profissão de educador muito cedo. No ano de 1992, com apenas dezoito anos de idade, atuei em turmas multisseriadas, em escolas da zona rural deste Município. Em 2001, juntamente com muitos amigos e por motivos puramente “políticos”, tive que interromper minha carreira de educador neste Município, e buscar espaços em outro, especialmente em minha Terra Natal – Limoeiro do Ajuru – onde exerci a Função de Gestor Educacional na E.M.E.F Manoel Temístocles Rodrigues, localizada na zona rural daquele Município. Voltando a São Sebastião da Boa Vista, somente no ano de 2005, quando o governo democrático-popular do partido dos trabalhadores “repatriou” profissionais que encontravam-se em vários municípios do Estado ou fora dele para repensar e trabalhar uma educação participativa, onde todos os atores envolvidos pudessem atuar mais livremente, por ser típico de sua filosofia acreditar que desta forma poderemos melhorar a qualidade de ensino em nosso Município.

Blog -À frente da secretaria há poucos meses, o senhor já conseguiu desenvolver algum trabalho que já tenha a sua marca?
JMG- Apesar de que não penso muito em marca exclusiva, em promoção pessoal ou coisa do gênero, idealizo estudantes pensantes, protagonistas de seu tempo, sua realidade. Sei que para isso, temos que nos esmerar em superar-nos, em ousarmos e, unidos, reinventarmos a educação boavistense. Embora para isso devamos, de vez em quando, fazer diferente. É pensando nessa diferença que, de imediato, investimos na logística dos prédios escolares. Mantivemos a reforma da chamada Creche Cantinho do Amor, da Escola Vereador Engrácio e estabelecemos a do prédio antigo da Escola Padre José de Anchieta. Estamos cada vez mais nos aproximando da comunidade, das escolas. Daí sermos pioneiros em realizar a Jornada Pedagógica em cada Pólo (que são formados por escolas geograficamente próximas em torno de uma escola matriz) como já o fizemos em abril. E, efetivarmos um Projeto de resgate dos alunos evadidos. Definido como Evasão Zero – Educação é Tudo de Bom que intenciona firmar parceria com órgãos de proteção e assistência à infância como a Pastoral da Criança, o Conselho Tutelar, as Secretarias de Saúde e Assistência e, claro, a Promotoria de Justiça a fim de, através de várias ações e estratégias se extinguir a evasão escolar em nosso município. A síntese do Projeto Evasão Zero estará brevemente disponível no blog da Secretaria de Educação: www.semedboavista.blogspot.com , onde os convidamos a interagir conosco. Enfim, penso que educação se faz com e pelo coletivo, por isso, estabelecemos novo organograma e novos projetos ou programas que viessem a contemplar as demandas atuais advindas do estabelecimento do sistema municipal de ensino e da busca da qualidade de uma educação para a diversidade de que tanto falamos atualmente. Os novos espaços/ações são: Seção de Educação do Campo e EJA, Seção de Educação Física e Educação Especial, Departamento de Gestão de Documentação e Arquivo, Divisão de Documentação e Autorização e, os projetos/programas: Turma Pioneira de Professores para a Educação do Campo além da busca e manutenção de diversos cursos de capacitação pelo PARÁ e fora dele.
Blog – O difícil acesso às comunidades afastadas dificulta o trabalho da secretaria?
JMG – Sem dúvida. Foi pensando nessa situação que adquirimos uma lancha-voadeira para encurtar em muito a distância às comunidades longínquas e, desta forma, otimizar o atendimento e a troca de experiências e saberes com as famílias e com as escolas desses locais.

Blog – Levando em consideração os hábitos alimentares de nossos alunos, a secretaria se preocupa com a questão nutricional da merenda escolar?
JMG – Sei que temos que promover uma educação partindo de nossa realidade e, é por isso, que estamos paulatinamente tentando introduzir uma alimentação nutritiva e regional, como o camarão, açaí e carne bovina , firmando parcerias com associações e cooperativas locais. Porém, temos que ter cautela, pois, nem tudo o que faz parte do contexto alimentar de nossas crianças é saudável ou nutritivo. Nosso nutricionista é muito preocupado com essa e outras questões como o caso da manipulação dos alimentos por nossas agentes de nutrição.

Blog- Faça um resumo das atividades do 1º semestre e nos informe sobre o que teremos para o 2º.
JMG – Entre as atividades destes poucos meses do 1º semestre podemos destacar: Abril – Levantamento das necessidades e do patrimônio da rede; Curso de Formação de Língua Portuguesa; Reuniões de planejamento do Secretário com a equipe técnica; Adesão e Inscrição dos professores à Olimpíada de Língua Portuguesa; Retomada do Plano Municipal de Educação; Maio – Jornada Pedagógica nos Pólos Emmanoel, Pedro Nogueira e Caeté com participação de vários segmentos das escolas; Provinha Brasil; Formação das Turmas do Curso de Formação pela Escola do FNDE; II Encontro do Pólo Emmanoel; visita às escolas do meio rural; Reunião com o SINTEPP para discussão do PCCR (Plano de Cargos, Carreira e Remuneração dos Trabalhadores da Educação); Curso de Formação para Correção de Fluxo. Junho – Curso de Formação de Gestores em Educação Inclusiva – Belém Pará; Curso de Formação e Oficina de Pareceres do Ensino de Nove Anos; Curso de Formação da Escola Ativa; Treinamento para o Educacenso (para auxiliares e gestores escolares). Julho – Curso de Formação/treinamento para o LSE (Levantamento da Situação Escolar), Reunião com os responsáveis do Censo Escolar; Escolha do Livro Didático; Aquisição de lancha-voadeira para melhor assessoramento às escolas do meio rural; Curso de Introdução à Inclusão Digital; Vistoria dos Diários de Classe; Funcionamento do Prédio da UAB; serviços internos.
Temos agendado para o 2° Semestre:
Agosto – Reestruturação do CME (Infraestrutura e assessoria pedagógica); Oficina de Projetos; Encaminhamento do Regimento Unificado ao CME, Oficina Pedagógica no Pólo Emmanoel, Reuniões de Preparação ao Dia 7 de Setembro, Encontros: Pólo Cidade, Pólo Caeté, Pedro Nogueira, Escola Ativa; Homenagem aos pais/família; Mobilização à realização dos PPPs e à Regularização das Escolas; Lançamento do projeto Evasão Zero; Encontro de Formação sobre Educação Inclusiva; Sistematização do Plano de Implantação do Ensino de Nove Anos.
Setembro – Efetivação do LSE, encontro no Pólo Emmanoel Lobato, Desfile Escolar, Encontros de Orientação Curricular, Jogos Intercolegiais e Feira Cultural; 2ª Fase das OBMEPs.
Outubro – Semana da Criança; Dia Temático nas Escolas.
Novembro – Final do Intercolegial, Culminância da Feira Cultural.
Dezembro – Confraternizações / Colações de Grau.

Blog – A reformada da creche era realmente necessária ? Nos informe sobre a reabertura da creche e em que ela foi melhorada.
JMG – Investimento na educação de modo geral e, principalmente, na infraestrutura deve ser meta incansável de todo gestor que saiba do valor desta. A reforma da então Unidade Educacional Cantinho do Amor era sonho e luta de todos os educadores que ali atuam, que viam o estado precário em que ela se encontrava. Ela foi melhorada do piso ao teto. Está mais segura, confortável e aconchegante. Ganhará um parquinho completamente reformado e seguro. Consolidamos seu Conselho Escolar que representa mais democracia e autonomia (inclusive financeira) para a “Creche”. Estamos planejando ainda para ela, em consonância com a Coordenação de Educação Especial e a Direção as demandas necessárias para que ela se torne uma Unidade Educacional Inclusiva e acessível a todos e todas as crianças.

Blog – O IDEB em São Sebastião da Boa Vista está acima da meta, mas abaixo da média estadual. Quais os fatores desta melhora e do baixo índice?
JMG – Ao observar o IDEB municipal e estadual, verifica-se de fato, que as duas esferas avançaram significativamente nos últimos anos, mas não foi o suficiente comparado com o avanço de outros estados. Se compararmos o IDEB observado no estado com o de nosso município podemos destacar que avançamos muito mais que o estado, pois, em 2005 o nosso IDEB era de apenas 1,9. Avançamos para 2,5 em 2007 chegando em 3,5 no ano de 2009; superando dessa forma as metas projetadas para o ano de 2013 que é de apenas 3,4. Enquanto que o Estado em 2005 tinha um IDEB observado em 2,8; continuou com o mesmo IDEB em 2007 e, alcançou neste ano 3,7 superando as metas de 2011, ou seja, enquanto avançamos 1,6 pontos no decorrer dos anos o estado avançou somente 0,9 pontos. Essa melhora nos índices educacionais deu-se através de uma série de fatores e ações realizadas por gestores da educação anteriores a mim das quais, inclusive, fiz parte como técnico pedagógico. Digo isso porque não gosto de negar a história. A educação é processo. É construída no ontem, no hoje e no amanhã. O que precisamos apenas é rejeitar as ações infrutíferas, mal sucedidas. Mas foi em um ontem recente a partir do ano de 2005 que começou-se a pensar em reflexão da educação à luz dos dados nacionais, em análise desses dados para intervenções severas, nos planejamentos e encontros de formação, a fim de se aprimorar o processo. A efetivação de docentes através de idôneos concursos públicos, onde inclusive tornei-me funcionário fixo da rede, foi um grande avanço. A política nacional de formação dos professores também favorece em muito. No momento, temos 91 professores cursando uma graduação em IES pública, 20 pós-graduandos em Mídias na Educação, seja pelo PARFOR, Pró-Campo e UAB que congrega as Universidades Federal do Pará – UFPA, a Universidade do Estado do Pará – UEPA e o Instituto Federal do Pará – IFPA; temos vários professores em cursos de formação continuada e extensão universitária. É difícil saber de algum professor que não tenha tido nenhuma capacitação seja através da Plataforma Freire, do PAAR, das parcerias externas ou do esforço de nossos próprios técnicos. O fortalecimento e criação de vários Conselhos Escolares promoveu a autonomia democrático-financeira das escolas possibilitando a aquisição de uma série de materiais didáticos para facilitar uma prática pedagógica mais efetiva. O PCCR está avançando como fruto de debate e diálogo com a categoria que em muito valorizará os trabalhadores da educação. Aliás, o próprio termo ‘trabalhadores da educação’ que foi objeto de grande polêmica e embate na rede estadual de ensino junto à categoria já está confirmado como verídico através da lei recente que criou o nosso sistema municipal de educação. Enfim, creio que qualquer avanço educacional merece ser refletido a partir de sua realidade não para satisfazer números mas, para buscar sujeitos construtores/transformadores de sua história. E qualquer reflexão para mudança perpassa pela valorização profissional em toda a sua extensão. Valorização de todos os Trabalhadores da Educação. E, é em busca desse respeito e valorização que destaco em especial, o trabalho da equipe da SEMED. São técnicos, professores, gestores e agentes de modo geral que se desdobram em diversas demandas, que esmeram-se em todas as ações, quer sejam burocráticas, logísticas ou pedagógicas. As ações conquistadas, tal qual, as planejadas e/ou sonhadas a curto, médio e longo prazo dependem da força de vontade de cada um que faz a Secretaria de Educação, assim, como as escolas de nosso município.

Blog – A Sala de informática da João XXIII está sem os computadores (não se sabe onde estão) e já é usada por uma turma regular. Os alunos querem esclarecimentos.
JMG – Tenho boas relações com a profa. Terezinha Carneiro que há muito desenvolve um sério trabalho à frente da única escola estadual de ensino médio regular que o Governo do Estado mantém aqui. É através dessa relação de amizade que sei das angústias e sucesso ali vivenciados. Mas, como pertence a outra esfera não cabe a mim informar oficialmente situações dessa natureza. Contudo, sei que a escola possui suas forças de democratização e empoderamento, como um Conselho Escolar atuante, Grêmio Estudantil efetivado e estruturado para as devidas cobranças, reivindicações e parcerias necessárias a uma educação mais justa, digna e emancipatória.

Blog – Deixe uma mensagem para a comunidade estudantil de SSBV?
JMG – Digo à comunidade de modo geral que, precisamos urgentemente superar o estigma de povo nativo atrasado em sua educação, em sua cultura. A nossa qualidade de vida somente melhorará quando nos unirmos, enquanto comunidade no enfrentamento de nossos problemas coletivos, se nos reconhecermos enquanto educadores (quaisquer que sejam nossas profissões) que sonham e lutam por uma vida digna, por uma educação que ultrapasse a fronteira da escola e da nota que apenas julga sem se importar com a realidade e condições de cada estudante, sem trabalhar a educação para a vida, porque sabemos como diz Paulo Freire, sem menosprezar as outras áreas, que “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela, tampouco, a sociedade muda.” Precisamos pensar os dois extremos da educação para a sustentabilidade do ecossistema, ou seja, mais do que interrogar-nos sobre que planeta iremos deixar para nossos filhos, precisamos refletir sobre que filhos iremos deixar para nosso planeta. Parece pegadinha mas, não o é. Sabemos que a educação pública ainda é deficiente. Mas está mudando. Escolas estão sendo fortalecidas e inovadas, professores estão se capacitando, contudo, os estudantes precisam entender o real valor da escola e esmerar-se em fazer a sua parte, mostrar disciplina e motivação para o estudo, engajar-se em projetos de voluntariado e protagonismo juvenil. Aproveitando o embalo da copa que em muito nos mostrou a história de exclusão e preconceito da África, lembro a todos a frase de Nelson Mandela: “A educação é a arma mais poderosa que você pode usar para mudar o mundo.” Finalizo a conversa lembrando Jean Piaget: a principal meta da educação é criar homens que sejam capazes de fazer coisas novas, não simplesmente repetir o que outras gerações já fizeram. Homens que sejam criadores, inventores, descobridores. A segunda meta da educação é formar mentes que estejam em condições de criticar, verificar e não aceitar tudo que a elas se propõe. E ousando completar: homens que sejam capazes de recriar, ressignificar e transformar sua/nossa realidade.