A cultura da pajelança no arquipélago do Marajó será resgatada na biografia “Pajé Zé Piranha: histórias de cura e encantaria no Marajó”, escrita por Max Silva do Espírito Santo e Ailton Silva Favacho. Com 233 páginas com histórias de 21 pessoas que tiveram contato em vida com o pajé Zé Piranha, a obra está entre as publicações a serem lançadas pela Imprensa Oficial do Estado no segundo semestre deste ano.

José do Espírito Santo nasceu em 15 de junho de 1921, na Fazenda São José, em Mangueiras, um quilombo em Salvaterra e faleceu em 29 de maio de 1999, aos 78 anos. Aos 7 anos de idade, quando morava no quilombo Mucura, já sentia muitos desmaios, o que indicava os primeiros sinais do dom da pajelança. Mais velho e já muito incomodado com a presença cada vez maior da pajelança na sua vida, decidiu que iria morar em Soure por acreditar que naquela cidade a polícia iria “prender” os guias (encantados) que o acompanhavam.

A aceitação do que seria um dom e a certeza de uma futura cura e bendição para muitas famílias marajoaras, contudo, só chegou após a enfermidade de um filho, quando foi iniciado na pajelança por seu Tuxico, um pajé experiente. Foi então que surgiu o pajé Zé Piranha e sua trajetória da muitas curas através da pajelança marajoara, algumas delas relatadas na biografia “Pajé Zé Piranha: histórias de cura e encantaria no Marajó”.

O trabalho de construção das memórias do pajé Zé Piranha teve início em setembro de 2019, quando o professor Max Silva do Espírito Santo decidiu escrever o livro. “Era um sonho antigo meu. Eu tinha 14 anos quando já ouvia falar dele, mas não entendia bem o que ele fazia. Só fui compreender, de fato, quando percebi que esse dom não existe mais no Marajó.”, comentou o escritor, ao reforçar que o objetivo principal da biografia “é fazer com que as pessoas voltem a falar sobre a pajelança, afinal o livro é uma memória sobre a cultura da pajelança no Marajó”.

Todas as pesquisas e entrevistas foram divididas com o escritor Ailton Silva Favacho, responsável também pelas apresentações dos personagens na literatura de cordel, que enriquecem a história de vida do pajé Zé Piranha. Entre os relatos, traduzidos na íntegra, há histórias de pessoas que conviveram com o pajé no quilombo, nas fazendas, dos filhos e de outras pessoas próximas que foram curadas ou tiveram filhos curados. “Nesse resgate múltiplo, conseguimos rever muitas receitas de curas naturais utilizadas desde a época dos quilombos e que até hoje ainda são usadas”, comentou Ailton Favacho.

Ainda em processo de finalização, a biografia do pajé Zé Piranha terá prefácio assinado pelo professor de Antropologia da Universidade Federal do Pará, Agenor Sarraf. “A obra é de grande relevância por resgatar a cultura e memória da pajelança marajoara e merece todo o apoio do Governo do Estado, como forma de valorização da cultura marajoara”, disse o presidente da Imprensa Oficial do Estado, Jorge Panzera, que recebeu os autores da obra para tratar da publicação.

Fonte: O LIBERAL